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Seca-Portugal não é um Pais deficitário em Água

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Seca? Portugal não é um Pais deficitário em Água – Ilídio Martins

A seca que hoje, mais uma vez, afeta quase todo o Pais, tem implicado graves prejuízos materiais e económicos em diversos setores e direta ou indiretamente afetado todo o território, com consequências na qualidade de vida das pessoas.

É nesta altura que habitualmente se apela á poupança, ao civismo, ao bom uso,… fala-se em restrições ao consumo, constituem-se comissões da seca, promete-se investir milhões… enquanto se espera que o ciclo seco termine e venha novo ciclo chuvoso.

Portugal não é um Pais deficitário em água. Quem consulta os documentos oficiais da APA-Agencia Portuguesa do Ambiente (Autoridade Nacional da Agua) e da DGADR-Direção Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural (Autoridade do Nacional Regadio), facilmente constata que dispomos de muito mais recurso água do que o volume que consumimos em todos os setores. Temos efetivamente um problema de distribuição territorial, de distribuição sazonal e de distribuição interanual. Não há água suficiente onde ela é mais precisa. Não há água suficiente quando ela é mais precisa.

Em certas regiões e em certos períodos temos excesso de precipitação, provocando inundações, contrastando com ínfimas precipitações em outras regiões. Em alguns anos a precipitação é manifestamente excessiva, em contraste com outros anos de reduzida ou nula precipitação. Somos um Pais pequeno, com uma orografia díspar, marcadamente influenciado pela frente atlântica e pela proximidade dos desertos do norte de África.

Para contrariar a carência de água por períodos prolongados, num determinado território, há (houve?) a tentação de utilizar de forma desordenada os recursos subterrâneos, como se fossem infinitos. Tal tem-se afigurado desastroso em algumas regiões, quer pelo esgotamento desse recurso, quer pela intrusão salina, inutilizando uma reserva que deveria ser estratégica.

Considerando que o Pais não é deficitário em água, enquanto se renovar o ciclo da água, mesmo com estes desequilíbrios, devemos encarar com otimismo o futuro, centrando esforços em ações concretas para minimizar e ultrapassar as situações de seca.

A utilização das reservas superficiais deverá ser a aposta, para todas as utilizações, maximizando-se o potencial de armazenamento e de distribuição. É sabido que quanto maior a capacidade de armazenamento das albufeiras, maior será a capacidade de regularização interanual. Também sabemos que uma rede de distribuição de água eficiente e com capacidade de interligação é essencial para levar o recurso onde será necessário.

O investimento que foi e está a ser efetuado no Alentejo através da construção da barragem de Alqueva e de toda a rede de barragens e canais que está a interligar quase todo o sul do Pais permite que no presente ano a seca não afete parte deste território. Se hoje não existem prejuízos mais graves na agricultura, na indústria, no turismo e mesmo quebras no abastecimento público, será porque temos um sistema de distribuição organizado em rede, que leva a água a parte do nosso território. Chega a ser chocante o contraste entre o sequeiro e regadio no Alentejo. No sequeiro todas as pequenas albufeiras e charcas há muito que secaram, os poços esgotaram, os furos estão paupérrimos, as arvores vão definhando, transporta-se água em contentores ou cisternas para o abeberamento. No regadio produz-se alimentos através de uma agricultura de precisão, com produtividades elevadas, tendo por base a eleva luminosidade e temperatura do Alentejo, sendo essencial a indispensável capacidade de adução de água que é garantida pelo sistema Alqueva ou pelos aproveitamentos hidroagrícolas.

Hoje quando se liga um interruptor ou se liga um motor elétrico, pouco importa onde e de que forma a energia é produzida. Nem tão pouco se quer saber como é distribuída. Apenas se sabe que sem essa energia tudo seria diferente… para pior. Da mesma forma os consumidores de água – que somos todos nós – quer em casa, na agricultura, na industria ou no turismo, o que pretendem é dispor do recurso, sem restrições, ou com as restrições que o tarifário lhe vier a impor. De certa forma, a nível do abastecimento público tal já existe em parte do território. Na presente seca, em muito menor escala que em 1995, apenas as localidades que não estão ligadas em rede estão a ser efetadas pelas dificuldades no abastecimento.

Investir em barragens, sobretudo ampliando e aumentando a capacidade das existentes, interligar sistemas, canais e barragens, melhorar a rede de distribuição em alta, melhorar a eficiência dos sistemas de distribuição, são meios para ultrapassar a próxima seca, que tal como a atual, está ciclicamente anunciada, como poderão comprovar as estatísticas.

Os resultados do sistema de Alqueva no presente ano comprovam da importância de levar a todo o Pais, do Algarve a Trás-os-Montes, a necessidade de investir numa rede nacional da distribuição de água, através de sistemas de fins múltiplos, que garantam a continuidade e fiabilidade do fornecimento de água, mesmo em situações de seca prolongada. Será necessário um grande investimento? Muito menos do que a rede elétrica nacional ou a rede de auto-estradas, sobretudo se vier a utilizar-se o potencial das estruturas hidráulicas já existentes.

Mais do que tomar medidas avulsas de emergência, que não são mais do que paliativos, há que olhar o horizonte e assumir medidas de médio e longo prazo no âmbito de uma estratégia nacional que efetivamente resolva os problemas das secas.

 

lídio Martins

Diretor da ARBCAS–Associação de Regantes e Beneficiários de Campilhas e Alto Sado

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